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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Início de temporada

Da base que foi campeã carioca no ano passado, já saíram Gilberto, Antônio Carlos, Andrezinho, Fellype Gabriel, Vitinho, Seedorf, Bruno Mendes e Rafael Marques.

Deixaram a equipe ao fim do Brasileirão também os atacantes Alex e Hyuri e o volante Lucas Zen.

Pela lista, dá para perceber que as maiores perdas foram do meio para frente. Mas a reposição para a temporada de 2014 consistiu na contratação de volantes (Rodrigo Souto, Bollati e Aírton). Só um meia foi contratado, Jorge Wágner, e um atacante, Ferreyra.

Não é necessário muito esforço para perceber que o elenco ficou mais fraco quando na verdade deveria acontecer justamente o contrário: depois de 17 anos sem disputar a Libertadores, a torcida esperava mais reforços.

Os nomes especulados, a maioria deles jogadores estrangeiros, deixaram os torcedores empolgados. Mas no final nenhuma das contratações se confirmou. Assim, foi com Zeballos, Forlán, Neílton, Kleber, William José e Maxi López.

O time tem poucas opções no ataque: Ferreyra e Elias parecem ser os mais expressivos. Mas estão longe, muito longe de serem jogadores de destaque. Elias se machucou com frequência ano passado e não fez a pré-temporada com o elenco em 2014. Ferreyra já treina com o grupo há algumas semanas, mas até agora não teve sua situação regularizada e, ao que tudo indica, fará sua estreia com a camisa alvinegra já em Quito.

Talvez a tática da diretoria seja esperar os jogos contra o Deportivo Quito para depois reforçar o elenco. Pode ser. Mas também aí já pode ser tarde demais. Se o Botafogo não passa, seria um vexame. Só restaria então o campeonato carioca para a equipe no primeiro semestre. Mas no estadual ao optar por utilizar uma equipe reserva nos dois primeiros jogos e com a mudança de fórmula na competição, o alvinegro já ficou para trás.

O time B que disputa o Carioca é muito fraco. Poucos se salvam. A maior parte da equipe é formada por garotos muito novos que oscilam muito. Como são muito jovens, não podem ser cobrados como jogadores tarimbados. Quem se destacar nesse time reserva pode ganhar uma chance na Libertadores. Mas imagine: time precisando da vitória (ou empate) para se classificar contra o Deportivo Quito. Quem vai entrar para mudar o panorama do jogo? Sassá? Henrique?

É torcer para que as próximas semanas tragam notícias boas para o Botafogo. De preferência, notícias envolvendo reforços.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A luta pacífica de Marcelo Moreira por um jornalismo mais seguro

Quatro dias sem notícias. Tim Lopes saiu da sede da TV Globo no Jardim Botânico para gravar uma matéria em um baile funk na Vila Cruzeiro no dia 2 de junho e não voltou mais.  A morte, no entanto, só foi confirmada no dia 5 quando a polícia prendeu dois bandidos de uma quadrilha que presenciara a morte do jornalista.

“A morte do Tim foi algo muito traumático. Já existiam outros casos (de jornalistas mortos durante o trabalho), mas nenhum deles era tão famoso”, lembra Marcelo Moreira, então chefe de reportagem de Tim Lopes e um dos primeiros a receber a notícia.

Marcelo Moreira esteve no auditório da CPM (Central de Produções Multimídias)  da UFRJ no último sábado (dia 17) conversando com um grupo de 30 alunos sobre sua experiência profissional e sua atuação em organizações que investem e trabalham para a segurança de repórteres em todo o mundo.


A morte brutal de um colega durante o exercício da profissão acendeu em Marcelo um sinal amarelo. Um grupo de jornalistas começou a discutir os rumos da profissão em uma lista na internet e em encontros pelo Brasil. Em uma dessas reuniões, foi criada em dezembro de 2002, em São Paulo, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Um dos fundadores da associação e atual presidente, Marcelo explica a atuação da Abraji. “Não somos um sindicato nem produzimos reportagens. Estamos unidos em torno de objetivos comuns: fazer um bom jornalismo e garantir técnicas melhores de investigação”.

Atualmente, Marcelo também é um dos membros do quadro executivo do Insi (International News Safety Institute), organização fundada em 2003 que realiza treinamentos para repórteres que atuam em áreas de risco ou em cidades violentas.

O primeiro treinamento do instituto no Brasil foi realizado no ano de 2006 com cerca de 100 jornalistas, 50 em São Paulo e 50 no Rio de Janeiro. “Nunca o Insi tinha treinado tantos jornalistas de uma só vez”, conta Marcelo.  A demanda pelo curso em São Paulo cresceu, principalmente, depois que o repórter Guilherme Portanova foi sequestrado por integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) enquanto lanchava.

Desde então, outros dois cursos foram ministrados, um em 2010 e outro dois anos depois. No último, 12 repórteres tiveram aulas para que, no futuro, se tornem treinadores e não seja mais necessário importar a força de trabalho estrangeira.

Em sua página na web, o Insi mantém atualizado um ranking com a lista de jornalistas mortos enquanto trabalhavam. Em 2013, o Brasil ocupa a 6ª colocação na lista com três vítimas fatais . “A situação no Brasil é ruim. Síria, Egito, Somália, Índia e Paquistão têm mais jornalistas mortos, mas estão em guerra civil”, explica Marcelo.

A realidade das mortes no Brasil, no entanto, é bem diferente da de Tim Lopes. “O caso dele foge do perfil do jornalista que é assassinado em nosso país. Todos os bandidos foram presos e condenados”. Marcelo lembra ainda que, na maior parte dos casos, os repórteres assassinados trabalham em cidades do interior, em veículos menores. “Os crimes não ganham espaço na mídia e a investigação não é feita como nas grandes cidades”, lamenta Moreira.

Como editor chefe do RJTV 2ª edição, Marcelo Moreira também está preocupado com as agressões que os colegas de profissão vêm sofrendo durante a cobertura dos protestos  e admite que muitos repórteres têm medo de cobrir os eventos. A preocupação é tamanha que a emissora já cogita a hipótese de não cobrir as manifestações. “Não estamos mais mandando repórteres”, admite.

Marcelo ressalta que o objetivo da emissora é sempre informar de maneira correta, mas vê obstáculos nas atitudes agressivas de alguns manifestantes. “Se a gente parar de cobrir como vai ser? A informação vai ser dada por terceiros e a sociedade acaba sendo prejudicada”.

Entrevista com Andrew Jennings

Com 46 anos de carreira, o repórter Andrew Jennings revelou bastidores de entidades esportivas, como o COI (Comitê Olímpico Internacional) e a Fifa (Federação Internacional de Futebol). Bem-humorado e atencioso, o jornalista escocês está sempre aberto para dar entrevistas e ensinar os caminhos da profissão.  Nesta entrevista, o autor de “Jogo Sujo – o Mundo Secreto da Fifa” fala sobre sua trajetória profissional, comenta o significado dos protestos de junho e dá dicas para jornalistas iniciantes começarem suas próprias investigações.
Como e quando surgiu seu interesse por investigar esportes?
 Na realidade, eu nunca investiguei esportes e não sei nada sobre esportes. Eu sou investigador de corrupção. Ao longo dos anos, fiz diversas investigações sobre corrupção e, inclusive, fui repórter de guerra em 1989, quando Beirute estava sendo bombardeada.
Eu já fazia muita coisa, mas o que me inspirou foi a ideia de um livro sobre a corrupção no COI (Comitê Olímpico Internacional), que promove as Olimpíadas. Quando eu estava investigando o COI, e fiz isso por um longo tempo, surgiram outros escândalos. Mas foi preciso tempo para perceber que tinha algo muito errado com a FIFA. Então, quando um editor do London Daily Mail me pediu para investigar a FIFA, eu falei não, porque teria que viajar por todo o mundo. Mas, de qualquer jeito, acabei entrando nisso.
Então, não são matérias de esportes. Se me mandarem cobrir um jogo, tenho certeza de que vou voltar para a redação com o placar errado. Eu não estou interessado no jogo, estou interessado no fato de que estão roubando a paixão do povo e no montante de dinheiro que isso rende.
Você escreveu um texto sobre os protestos durante a Copa das Confederações, em julho. O que você achou deles?
Eu acho que, no futuro, os brasileiros vão olhar para esse momento como o renascimento da democracia. Ali, o povo disse não à roubalheira. Eram pessoas da classe média, que estudaram, e pagam impostos. Muitas dessas pessoas vão subir na carreira em alguns anos e vão se lembrar de terem sido atacadas com gás lacrimogênio.
Meio milhão de pessoas nas ruas de São Paulo, uma semana antes do início da Copa das Confederações! O que vocês fizeram foi gritar: “vá para casa, Fifa, bando de ladrões! Nós não te queremos aqui!”. E vocês devem fazer isso de novo quando a Fifa for se reunir, uma semana antes da Copa do Mundo. Não deixem essa reunião acontecer. Sem violência, sem bombas, sem pedras. Só vaias.
Vocês amam o seu futebol, mas não vão dar seu dinheiro para um bando de corruptos. Vocês não precisam da Copa do Mundo, porque não tem nenhum benefício em ser sede. Vocês podem só jogar nela. Os brasileiros vão ver os jogos pela TV, de qualquer jeito, porque não vão conseguir ingressos.
Qual o papel do jornalismo investigativo nesses protestos populares?
Os amigos brasileiros com quem eu converso, ativistas e jornalistas, acham que essas manifestações vão se intensificar de novo. Esses protestos mostram que os brasileiros por todo o país estão com raiva. Isso pode ser o renascimento da democracia, porque a democracia não voltou realmente depois de 1985. Vocês têm uma ilusão de democracia, com políticos corruptos em Brasília. Mas a Copa das Confederações acendeu uma faísca.
As pessoas disseram “Estamos fartos desses políticos!”, foram para as ruas e os representantes ficaram seriamente preocupados. Essas gigantescas manifestações mostraram que é possível frear o [Joseph] Blatter.
O povo brasileiro não é mais estúpido, como a FIFA pensava. E isso se deve muito aos bons repórteres que vocês têm e que fizeram trabalhos investigativos maravilhosos, como Rodrigo Mattos e Lúcio de Castro. Mas eu não posso fazer um balanço equilibrado da cobertura da mídia brasileira nesses momentos, porque não tenho acesso a tudo que é produzido, já que não falo português.
Os jornalistas têm que unir suas forças para investigar os contratos, desvios de verbas e onde os gastos foram superfaturados. Porque tem sempre um homem por trás. São os homens que assinam os contratos. Quem pagou para que entrasse no projeto da Copa um estádio na Amazônia? Quem assinou os documentos? A Amazônia é um lugar maravilhoso, mas todos sabem que não precisa daquele estádio de futebol, assim como Brasília também não precisa. Os políticos locais, ou quem quer que tenha assinado os papéis, estes são os alvos.
Então, os jornalistas devem mostrar ao público que a FIFA está explorando o Brasil?
Eu vou falar claramente. A FIFA não poderia explorar o Brasil se o grupo em volta do [Ricardo] Teixeira não tivessem tornado isso possível. Eles roubaram tanto que precisaram ser recompensados pela FIFA, com a Copa do Mundo.
Como foi a eleição do Brasil para sede da Copa do Mundo FIFA em 2014?
O Brasil não conseguiu a Copa porque é bom de futebol, isso é totalmente desimportante. Em minha opinião, o Brasil conseguiu a Copa do Mundo porque o Teixeira achou que conseguia roubar esse país cego, construindo estádios e inflando preços.
O crime de Teixeira não é só o roubo de dinheiro, é o fato de que ele abusou da paixão nacional. O ambiente era favorável para roubar o Brasil, então ele persuadiu a FIFA, principalmente o Blatter, dizendo que todos eram “estúpidos pelo futebol” aqui. Eles perceberam que podiam roubar do futebol. Não há nada errado em ser um fã de futebol. Ter paixões é um direito. Mas ele explorou isso e saiu impune por tanto tempo…
 Você acha que uma mudança na presidência da FIFA pode melhorar os problemas de corrupção?
Platini seria melhor do que o Blatter, mas ele ainda não se manifestou, porque está tentando manter os votos dos corruptos.
Meu próximo livro será sobre isso, então não vou falar mais para vocês (risos). Mas ele deve sair antes da Copa do Mundo. Então, os brasileiros poderão saber mais detalhes sobre como foram ferrados.
Além de ser uma forma de a FIFA e das pessoas no entorno da organização ganharem dinheiro, as empresas brasileiras também estão lucrando. Você acha que existe algum tipo de acordo entre essas partes?
Ah, sim. Teixeira está por trás dos contratos, não é? Se um dos homens mais sujos da política e da economia brasileiras está por trás dos contratos, você tem que escrutinar esses documentos. Tem que perguntar a essas companhias o porquê. Mas não vá perguntar para os chefes, eles vão inventar alguma desculpa para explicar porque a obra ficou mais cara. Procurar os funcionários que definiram os custos do contrato, os profissionais que estavam envolvidos na criação dos estádios e perguntar quais foram os custos. E descobrir por que vocês vão ter esses estádios dos quais não precisam. Isso é uma novidade para estrangeiros. Aqui a infraestrutura e o transporte são tão ruins que os brasileiros nem vão para os estádios. Então, eles deveriam construir a rua primeiro, depois o estádio.
Você acha que existe algum jeito de diminuir a corrupção nos esportes, mais especificamente no Brasil?
É necessário democratizar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Eu acho que o Romário está fazendo uma Lei de Esportes que deve ser boa. Ele está cercado por um bom time, então as propostas devem ser boas.
Diferente do Bebeto e do Ronaldo, ele está criticando. É bom que ele ganhou muito dinheiro com o futebol e, por isso, é difícil que seja comprado. Quando as manifestações começaram, ele foi o primeiro a apoiá-las publicamente. E, sendo das favelas, ele sabe que os ingressos não estão lá, mesmo que lá estejam as pessoas que pagam os impostos que pagam a Copa do Mundo. Eu não estou dizendo que ele é um líder, mas a voz dele, como uma estrela do futebol, ajuda muito. Porque ele é uma voz genuína dentro do esporte que vocês amam e todos sabem que não pode ser comprado. Também não podem tirar os mil gols dele, dizendo “você ganhou a Copa de 1994, quem se importa?” (risos). Ele é muito interessante porque está fazendo a coisa certa e é intocável.
Se vocês acharem que ele não está indo longe o suficiente, façam lobby com ele. Ele provavelmente vai escutar. Se vocês apontarem coisas interessantes, ele pode ouvir e incluir nas propostas. Vocês vão protestar e os congressistas vão tentar bloquear as propostas, e aí ele vai listar quem está sendo contra. Aí os jornalistas de cada local vão investigar porque esses políticos estão votando contra. É importante acompanhar quem vota no que.
É difícil ter acesso ao documento para fazer investigações mais profundas porque precisamos acionar as assessorias de imprensa. Como contornar isso? 
É uma longa batalha, você não vai ganhar rápido. Assim como vocês têm uma batalha por democracia no Brasil. O que você faz é: pesquisar cuidadosamente, elaborar as suas perguntas. Não 20, cinco já são suficientes. E devem ser escritas cuidadosamente, sem abusos. Isso leva tempo, não precisa se apressar.
Aí quando eles te mostrarem o dedo, você publica o e-mail em pdf com a resposta deles. Não importa se eles não falarem com você, jornalista, o problema é que eles não estão falando com o povo! Nós somos os veículos, nós apenas transmitimos. Isso é o que eu chamo de “Guerra de E-mails”: pensem bem nas suas perguntas.
Depois faça de novo alguns meses depois. Eles não gostam de ver isso publicado. Mas é o que nós podemos fazer.
Às vezes, os assessores não gostam, nos questionam porque estamos fazendo aquelas perguntas. Como lidar com isso?
É esse o ponto da “Guerra de E-mails”. Não fale “eu tentei falar com o presidente da empresa e ele não respondeu”. Isso é muito chato (imita um bocejo). Não temos como saber por que. Mas se você fizer a sua pesquisa e definir as perguntas que o público gostaria de fazer, eles vão ler e dizer “sim, era isso que eu queria saber. E eles não respondem!”. Então, você usa o seu e-mail como prova. Por isso é sempre bom pedir para eles responderem o e-mail, em vez de falar só por telefone. Bater neles não é a solução, e sim, expô-los. E assim você expõe os vilões com sucesso.
Isso pode acontecer sistematicamente aqui e ali. Vocês têm que aproveitar o fato de que esse é um país grande e existem ótimos jornalistas fora do eixo Rio-São Paulo.
Que dicas você daria para alguém que está começando uma carreira no jornalismo investigativo?
Comece pequeno. Investigando um time local, a câmara municipal da sua cidade, uma empresa pequena que está fazendo alguma coisa errada, como por exemplo, poluir o meio ambiente. Pedreiros não começam construindo um grande prédio, mas uma casa pequena. Eles aprendam a técnica de por tijolo em cima de tijolo, eles erram. É o desenvolvimento de uma habilidade, assim como no jornalismo. Você aprende onde achar os tijolos, como organizá-los.
 Procure uma história escandalosa e investigue, aprenda como fazer, inclusive com os erros. Converse com jornalistas experientes. Eles vão dizer “não, não faça isso. Pergunte assim”. E assim você constrói suas habilidades. Eu quero me aposentar, eu tenho 70 anos! Então vão lá, levantem da cadeira, comecem a trabalhar e me tirem de cena! Quero ouvir: “obrigada, Andrew. Tchau, nós assumimos agora”. É por isso que eu venho para esses congressos, para inspirar, ensinar técnicas para que os jovens façam. Mas não se pode começar com uma empreiteira. Para qualquer um de nós, repórteres experientes, já é difícil. Ache uma coisa que você vá dar conta, mesmo que só saia nos jornais locais. Assim você está aprendendo, vai ter sucessos e fracassos. Comece pequeno porque você ainda não é grande. E, com sorte, você vai ficar grande também.
Como identificar as boas pautas?
O Brasil tem pautas boas em qualquer lugar, porque existe muita corrupção. O jornalista tem que desenvolver o faro. Está fedido por aqui? Quem pagou por isso? Quem pagou por aquilo? Por que o prefeito está com um novo carrão, se ele não ganha o suficiente para isso?
Então, seria basicamente seguir o dinheiro?
Isso é um clichê, mas por que não? Use seus olhos, procure pessoas boas dentro das organizações em quem você possa confiar e descobrir coisas. Para depois você poder procurar documentos, corroborar e transformar aquela pessoa em uma fonte.
Às vezes é melhor você ouvir uma pessoa em off?
Sim, eu não quero as aspas, eu quero o documento. Eu não quero mostrar um secretário, eu quero os  arquivos. Para eles dizerem: “Ricardo, olha essa merda no jornal!”. E a pessoa pode ir para casa pensando: todos esses anos de bandidagem, e agora eu ajudei a desmascará-los e eles não podem me rastrear.
Reorganizar a documentação para que não seja possível identificar a fonte. Antes dos computadores, nós falaríamos para a fonte fazer cópias dos documentos e deixar ao redor do escritório. Assim, qualquer um poderia ter vazado, eles não olhariam para aquela pessoa.
E hoje em dia?
Dá para imprimir, tirar o cabeçalho, os carimbos de escritórios, as datas. Só use a cabeça, pensando: eu estou tentando achar formas para suprimir os jeitos de rastrear os documentos. Além de perguntar o que preocupa a pessoa que se arriscou. Se ela achar melhor tirar uma parte do documento porque isso vai apontar para ela, tire. Mesmo que seja uma parte muito boa, você ainda terá o resto do documento. Converse com as pessoas, com as fontes. Pergunte o que os preocupa e também o que é importante. Às vezes você pode não perceber que um dado significa dinheiro indo para o primo de alguém. Peça para eles te guiarem, te explicarem. Então escute, converse.
Quando estamos fazendo uma matéria delicada como o Maracanã…
Não é uma questão delicada, é difícil. Porque as pessoas querem saber o que aconteceu com o Maracanã. Você tem a população por trás!
…você sente que está incomodando.
Eles que se fodam. Era o estádio do povo. Você sabe o quanto ele estava enraizado na cultura carioca e o quanto ele importa para as pessoas. Então quando você investiga, eles dizem “uau”.
É assim com toda a Copa do Mundo, não é? Mesmo com a CBF sendo uma organização privada, o futebol é de interesse público, e o dinheiro gasto vem dos impostos.
Texto: Giulia Afiune, Katryn Dias e Maria Clara Modesto



O homem invisível

O jornalista do Fantástico que não pode mostrar seu rosto

Se um dia você encontrar com ele na rua, passará direto. Dono dos principais prêmios dedicados à imprensa brasileira (Esso, Embratel, Libero Badaró, Direitos Humanos de Jornalismo, entre outros), Eduardo Faustini é lembrado no Brasil inteiro por suas reportagens no Fantástico, mas poucos conhecem seu rosto. Por medida de segurança, ele não pode exibi-lo.

Na sede da Rede Globo, onde trabalha, basta dar uma volta para ver como ele é querido por seus colegas. Não há um que não pare para cumprimentá-lo. O reconhecimento é justo. Faustini é um dos principais jornalistas do país e autor de grandes reportagens investigativas na TV. Em uma das mais recentes, ele se passou por um gestor de compras do Hospital de Pediatria da UFRJ e flagrou com suas câmeras escondidas esquemas de propina e manipulação de resultados em licitações na área de saúde. Seu objetivo, ele garante, “não é punir nem prender alguém, mas sim informar”. A punição ele deixa com a polícia.

Faustini também já mostrou a falta de preparo dos principais aeroportos brasileiros, ao despachar em uma mala uma réplica de AR-15, um pacote de açúcar simulando cocaína e R$100 mil em notas falsas. Não foi parado em nenhuma das viagens.

O jornalista recebe ameaças diárias e não pode deixar a sede da emissora sem a presença de seus seguranças que o acompanham 24h por dia. Quando faz uma grande reportagem, é obrigado a sair do país por tempo indeterminado. Nessa entrevista, Faustini não conta detalhes de sua vida pessoal, família e intimidade.  É a sua vida que está em jogo.

Como você começou no jornalismo? Chegou a cogitar outro curso?
Sempre quis fazer jornalismo. Trabalhei em jornal, fiz um pouco de esporte. Estou há 18 anos no Fantástico, mas passei pelo SBT e Manchete também. Fiz o programa Documento Especial, que tinha uma audiência muito grande. Lá era a notícia que chamava a atenção, o repórter não mostrava seu rosto.

Como é o processo de criação de suas matérias? Você que surge com uma ideia e faz uma pauta ou aceita sugestões dos outros jornalistas?
Noventa e nova por cento das pautas são minhas, eu mesmo que sugiro. Preciso acreditar muito na minha pauta, mas quando geralmente a escolho é porque já pesquisei bastante e sei como fazer. Recebo muitas sugestões por e-mail, redes sociais e pelo denuncie.eduardofaustini@gmail.com. Às vezes, uma pequena denúncia é um start para algo maior. Gosto muito do que está no imaginário popular: todo mundo sabe que existe, mas na TV é a primeira vez em que é mostrado. A força da imagem e do vídeo é muito grande.  Tudo o que eu falo tenho que mostrar.

Quanto tempo você gasta em cada uma de suas matérias? Você trabalha exclusivamente nela?
Em média, dois meses trabalhando exclusivamente em cada matéria. O jornalismo investigativo demanda muito tempo e nem sempre traz resultados. Já teve uma vez em que fiquei 12 horas num lugar para fazer uma imagem de 15 segundos.

Você tem preocupações sobre qual roupa vestir em determinadas ocasiões, de acordo com a matéria?
Você é o que você veste. O visual é muito importante. Preciso estar vestido de acordo como que faço, com o ambiente frequentado.

Quais os “infiltrados” brasileiros você admira?
Em revista são vários. Mas sei mais de TV, porque é o que acompanho. Gosto do Giovani Grizotti, (RBS); do Tyndaro Menezes (Rede Globo), que trabalha mais com os bastidores; do Rubens Valente (Folha de São Paulo); do Amaury Ribeiro Jr (autor do livro “A privataria tucana”) e do Caco Barcellos (Rede Globo).

Qual a diferença entre o jornalismo investigativo e os demais tipos de profissionais dessa área?
O jornalista investigativo nunca está satisfeito com a apuração. Ele não se conforma só com o quê, quem, quando, onde, como e por quê. Ele quer mais. O jornalista investigativo não investiga para punir, nem prender, mas para informar. Quem investiga para punir é a polícia. Não quero saber se o ministro vai cair, se o dono da empresa vai ser preso...

A morte de Tim Lopes foi marcante. A partir daí, surgiu uma nova forma de tratamento entre repórteres e traficantes e um maior investimento em equipamentos de segurança. Desde então, o que mudou efetivamente em seu trabalho e no jornalismo investigativo?
A morte do Tim é um divisor. Ela jogou luz numa atividade que era feita na sombra, de forma solitária. Algumas pessoas pensavam que esse tipo de jornalismo estaria fadado ao fim. Mas aconteceu o contrário. O jornalismo investigativo ganhou muita visibilidade e se fortaleceu. Surgiu a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a melhora nos equipamentos de segurança. Contudo, essa visibilidade me preocupa. O repórter não é artista, nem celebridade.

Você se sente incomodado em não poder receber pessoalmente seus prêmios?
Fico vaidoso e guardo todos os meus prêmios. Já ganhei todos eles. Só não posso é buscar. Mas não faço matéria para ganhar prêmio, nem acredito que alguém faça isso.

Não conhecer seu rosto dificulta o reconhecimento das pessoas ao seu trabalho?
As pessoas não me conhecem, mas acompanham meu trabalho e rezam por mim. É uma  relação de família. Elas me alimentam. Gosto muito desse retorno do publico. 

Alguns advogados (Bruno Silva Rodrigues e Diego Tebet da Cruz) escreveram um artigo após sua mais recente matéria (em que atua como gestor da UFRJ e mostra as fraudes nas licitações da saúde) dizendo que o que você faz não é constitucional. Você tomou ciência desse material?
Pergunto a serviço de quem eles fizeram isso. Não entro na questão jurídica, pois não sou advogado. Faço isso (trabalho com câmera escondida e jornalismo investigativo)  em TV há quase 30 anos e nunca fui processado. Ao contrário: sou sempre escolhido como testemunha do Ministério Público e da Polícia Federal. Pratico o jornalismo investigativo com responsabilidade social. Durmo tranquilo, porque sei que estou fazendo a coisa certa. Eu faço apenas, não coloco no ar. A direção aprova e coloca na TV.

No mesmo artigo, eles reclamam do uso da câmera escondida...

A microcâmera é meu último recurso. Sempre me pergunto se não é possível usar a câmera aberta. Até porque elas costumam ser de péssima qualidade, você não sabe o que está filmando. É como um voo cego. Em casa com a TV em HD, o telespectador sente a diferença na qualidade das imagens.

Não dá um certo nervosismo quando você faz essas matérias de denúncia? Como você lida com o medo?
Não é só o medo do perigo. É o medo de não dar certo. Sem ele, você não tem parâmetro e coloca a equipe em risco. Mas o medo geralmente eu só sinto depois, quando meu corpo reage e fico com febre.  Na hora eu tenho que falar firme. Não sinto fome, nem sede. Desenvolver esse domínio sobre o corpo é fundamental. Ninguém fica nervoso no dia-a-dia.  Se eu tremer ou gaguejar, ponho tudo a perder. Sinto-me mais tranquilo fazendo uma matéria do que sendo entrevistado.

De todas as suas reportagens, qual você sentiu mais medo?
Foi quando estive dentro do “caveirão” da polícia. Senti muito medo. Seria a única matéria em que não faria de novo. Eram 12 homens dentro de um carro atirando, na mesma favela em que o Tim tinha sido morto. Me senti como um patinho no parque.  

Como você reage às ameaças que recebe?
Isso acontece em qualquer matéria. Já mando entrar na fila para me matar. Não é deboche. As pessoas ligam aqui para a redação e eu escuto aquele bando de besteiras.  Na maioria das vezes, é um desabafo. A própria família do acusado não acredita e se sente no direito de me ameaçar ao telefone.

Em entrevista à Revista Trip você contou como é difícil a sua rotina e de sua família fora do ambiente de trabalho. Você comenta em casa sobre as matérias que está apurando?
Não comento com ninguém sobre minhas matérias. Mas, pela chamada, minha família já sabe quando é o meu material. Antes meus vizinhos me ligavam depois da reportagem ir ao ar, perguntando o porquê de continuar fazendo aquilo. Mas não adianta: não consigo parar. É o meu vício.
Como é sua relação com sua família e filhos? O que gosta de fazer nas horas de folga?Não tenho problemas com minha família. Consigo acompanhar bem os meus filhos. Gosto de ir ao restaurante com eles, de viajar, assistir os jogos do Vasco... Tento fazer da minha casa um lugar aconchegante.

O jornalista Regis Rösing diz que você é Deus.  Você é reverenciado por todos. Mas como você se definiria, Eduardo Faustini por Eduardo Faustini?
Isso é uma brincadeira do Regis, que é meu amigo. Sou um repórter com muitas limitações e sei mais do que ninguém delas. Mas me dedico muito e sou um apaixonado pelo que faço. Não tenho privilégios, sou como qualquer um na redação.

Há alguma nova matéria que você ainda gostaria de fazer?
Tenho o projeto de entrar com micro câmeras em vários lugares, aonde ninguém desconfia. O maior castigo que Deus poderia me dar é a doença de Parkinson. Aí não teria como eu realizar essas matérias...

Quais dicas você daria para um repórter que quer se infiltrar?
Nenhuma faculdade forma jornalista investigativo. Isso é uma coisa que se conquista no dia-a-dia. A primeira coisa é você gostar do que faz. Pensar se gostaria de estar naquele lugar e naquelas condições. O jornalismo é um trabalho de risco, sem glamour. O Brasil tem uma grande quantidade de jornalistas mortos. Depois, é necessário se dedicar, procurar equipamentos e conhecimento.  Hoje as pessoas têm seu espaço mesmo sem aparecer no vídeo.  Nenhuma matéria vale uma vida, mas você não pode deixar de ter um risco calculado.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Melhores do Brasileirão 2013

O campeonato Brasileiro não acabou, mas já se conhece o campeão (Cruzeiro) e um dos rebaixados (Náutico). Os principais sites de esporte do país já começam a fazer listas com os destaques da competição. Assim como foi feito no primeiro turno, confira aqui os melhores nos troféus Armando Nogueira e Bola de Prata além de uma pequena análise.

Será que há três rodadas do fim, temos uma boa seleção? E quem é o craque do campeonato?


Goleiros:
Troféu Armando Nogueira
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,69
  • Jefferson (Botafogo) – 6,52
  • Aranha (Santos) - 6,47
Bola de Prata
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,37
  • Jéfferson (Botafogo) – 6,30
  • Renan (Goiás) – 6,14
Lateral direito:
Troféu Armando Nogueira
  • Mayke (Cruzeiro) – 6,23
  • Ayrton (Vitória) – 6,16
  • Sueliton (Criciúma) – 6,15
Bola de Prata
  • Mayke (Cruzeiro) – 6,03
  • Leonardo Moura (Flamengo) – 5,88
  • Luís Ricardo (Portuguesa) – 5,78
Zagueiro:
Troféu Armando Nogueira
  • Rodrigo (Goiás) – 6,42
  • Dedé (Cruzeiro) – 6,37
  • Gil (Corinthians) – 6,28
  • Manoel (Atlético-PR) – 6,27
  • Bruno Rodrigo (Cruzeiro) – 6,22
Bola de Prata
  • Rodrigo (Goiás) – 6,10
  • Dedé (Cruzeiro) – 6,07
  • Rodrigo Caio (São Paulo) – 6,02
  • Gil (Corinthians) – 6,01
  • Rhodolfo (Grêmio) – 6,00
Lateral esquerdo:
Troféu Armando Nogueira
  • Carlinhos (Fluminense) – 6,09
  • Juan (Vitória) – 6,00
  • Danilo Tarracha (Vitória) – 6,00
Bola de Prata
  • Alex Telles (Grêmio) – 5,84
  • Carlinhos (Fluminense) – 5,76
  • Júlio César (Botafogo) – 5,70
Volantes:
Troféu Armando Nogueira
  • Lucas Silva (Cruzeiro) – 6,47
  • Elias (Flamengo) – 6,45
  • Nilton (Cruzeiro) – 6,39
  • Ralf (Corinthians) – 6,27
  • Júnior Urso (Coritiba) – 6,25
Bola de Prata
  • Nilton (Cruzeiro) – 6,21
  • Elias (Flamengo) – 6,05
  • Lucas Silva (Cruzeiro) – 5,94
  • Ralf (Corinthians) – 5,92
  • Serginho (Criciúma) – 5,92
Meias:
Troféu Armando Nogueira
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,75
  • Paulo Baier (Atlético-PR) – 6,68
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,59
  • Alex (Coritiba) – 6,49
  • Juninho (Vasco) – 6,45
Bola de Prata
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,52
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,34
  • Seedorf (Botafogo) – 6,31
  • Montillo (Santos) – 6,38
  • Cícero (Santos) – 6,15
Atacantes:
Troféu Armando Nogueira
  • Walter (Goiás) – 6,81
  • Fernandinho (Atlético-MG) – 6,55
  • Diego Tardelli (Atlético-MG) – 6,51
  • Gilberto (Portuguesa) – 6,50
  • Marcelo (Atlético-PR) – 6,48
Bola de Prata
  • Walter (Goiás) - 6,45
  • Diego Tardelli (Atlético-MG) – 6,10
  • Jô (Atlético-MG) – 6,05
  • Fernandinho (Atlético-MG) – 6,03
  • Gilberto (Portuguesa) – 6,02
Craque:
Troféu Armando Nogueira
  • Walter (Goiás) – 6,81
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,75
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,69
  • Paulo Baier (Atlético-PR) – 6,68
  • D’Alessandro (Internacional) - 6,59
Bola de Prata
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,52
  • Walter (Goiás) – 6,45
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,37
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,34
  • Seedorf (Botafogo) – 6,31
Minha seleção:

  • Jéfferson (Botafogo)
  • Myke (Cruzeiro)
  • Manoel (Atlético-PR)
  • Dedé (Cruzeiro)
  • Alex Telles (Grêmio)
  • Nilton (Cruzeiro)
  • Elias (Flamengo)
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro)
  • Walter (Goiás)
  • Diego Tardelli (Atlético-MG)
  • Hernane (Flamengo)
Observações:
Troféu Armando Nogueira
  • A seleção ficaria assim: Fábio, Mayke, Rodrigo e Dedé, Carlinhos; Lucas Silva, Elias, Éverton Ribeiro, Paulo Baier; Walter e Fernandinho.
  • Dos 11 melhores, quatro jogadores têm passagens pela Seleção Brasileira principal (Fábio, Dedé, Carlinhos e Elias), mas apenas Dedé teve (poucas) chances com Felipão.
  • O Cruzeiro é o clube com mais representantes entre os melhores: nove. Se fôssemos escalar a seleção do campeonato com 11 jogadores no esquema 4-4-2, cinco jogariam na Raposa.
  • O segundo clube com mais indicações é o Atlético-PR com três, mas apenas um deles (Paulo Baier) seria titular na seleção do campeonato.
  • Em relação à seleção do primeiro turno, há bastante mudança. Apenas Mayke, Carlinhos, Elias e Walter se mantiveram entre os melhores em suas posições. Nos dois primeiros casos, os atletas jogaram menos no segundo turno.
Bola de Prata
  • A seleção seria assim: Fábio, Mayke, Rodrigo, Dedé e Alex Telles; Nilton, Elias, Éverton Ribeiro, D'Alessandro; Walter e Diego Tardelli. Há quatro diferenças em relação à do troféu Armando Nogueira.
  • O Cruzeiro é novamente o clube com mais indicações: seis. Na seleção no 4-4-2, cinco atletas da equipe campeã seriam titulares.
  • O Atlético-PR não tem nenhum indicado entre os melhores
  • Botafogo e Goiás têm três indicações cada. No caso do alvinegro, nenhum seria titular, enquanto no esmeraldino seriam dois.
  • Cinco jogadores se mantêm na seleção desde o primeiro turno: Alex Telles, Nilton, Elias, Éverton Ribeiro e Walter.
Outras
  • O Cruzeiro não tem laterais-esquerdos e atacantes indicados em nenhuma das duas premiações. 
  • O artilheiro do campeonato, Éderson, não aparece em nenhuma das duas listas. Dos que mais marcaram gols, estão na lista apenas Gilberto e Walter.
  • As notas no Bola de Prata são mais rigorosas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os verdadeiros interesses dos grandes eventos esportivos

Follow the money. A famosa frase imortalizada por Garganta Profunda no filme “Todos os homens do presidente” é uma lição que os jornalistas Lúcio de Castro, Andrew Jennings e Rob Rose aprenderam após anos de investigações esportivas.
Na palestra realizada nesse sábado no auditório Del Castilho, na Conferência Global de Jornalismo Investigativo, Lúcio de Castro contou detalhes de como investigou, em 2009, o então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Ricardo Teixeira. “Todos os caras assim têm um homem de finanças por trás. Faltava descobrir quem era esse cara”.
Após uma extensa pesquisa que envolveu a consulta de documentos na Justiça e em juntas comerciais, o jornalista da ESPN Brasil descobriu que o “cara” era Claudio Honigman. Com a ajuda de uma ex-mulher do empresário, Lúcio mapeou o esquema armado pelo ex-presidente da CBF e as empresas de Claudio. “Ricardo Teixeira era sócio dessas empresas e se beneficiava do dinheiro que a seleção brasileira ganhava”.
Recentemente, Lúcio também investigou as participações das empreiteiras nas obras no Maracanã. “O que mais me chamava a atenção é como um patrimônio histórico tombado pode ser modificado sem a autorização da Presidência da República”, algo que é proibido por lei.
As intervenções na estrutura do estádio foram permitidas graças ao ex-superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) Carlos Fernando de Souza Leão Andrade. Após sair do instituto, Carlos recebeu um cargo no governo do Estado, o que teria facilitado a sua atuação na obra que custou mais de R$ 1,2 bilhão. “O que aconteceu na reforma do Maracanã foi um crime. A história foi silenciada. Isso mostra as forças das empreiteiras no Brasil”, desabafou Lúcio de Castro.

Estouro no orçamento é uma situação também conhecida por Rob Rose, jornalista sul-africano do Sunday Times. “A Copa na África do Sul custou mais de US$ 3,5 bilhões. Mas o que ficou de legado para o país? Não muito.”

Rob Rose fez duras críticas à Fifa e a forma como a entidade atua nos países que recebem a Copa do Mundo. “A Fifa controla a Copa como se fosse a mão de Deus. Como se tivéssemos que ficar muito gratos por sediar o evento.”
O estádio de Green Point, na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi citado como exemplo de elefante branco construído por exigência da federação. “É um lugar lindo, mas no meio do nada. Mas Blatter (presidente da Fifa) queria um estádio ali.”

Para Andrew Jennings, escocês que em 2006 lançou o livro “Jogo Duro” contando os esquemas de corrupção da Fifa, é preciso voltar ao processo de construção dos estádios para entender melhor a história. “A mentira vem desde o início.” O repórter lembra que, no começo, profissionais estimaram os custos das obras. “A pessoa sabe o preço de tudo: encanamento, torneiras. Mas o que aconteceu com esse custo?”, indaga ele.
É nesse ponto que entra o trabalho do jornalista investigativo para Andrew. Ele, que demorou nove anos até conseguir provas concretas sobre a corrupção na Fifa, defende que os próprios profissionais de imprensa brasileiros passem a investigar as entidades do país. Ao ser indagado durante a palestra, por exemplo, sobre as atuais relações entre a CBF e a Fifa, o escocês deu um recado. “Esse é o trabalho de vocês aqui (no Brasil).”

domingo, 3 de novembro de 2013

Terceiro round


Ele era um dos lutadores de boxe mais reconhecidos de sua época. Mas ultimamente tinha perdido espaço nos jornais e no coração dos fãs do esporte com a ascensão de novo grupo de lutadores, fortes e jovens que sabiam muito bem usar a mídia ao seu favor.

Buscava recuperar o tempo e o espaços perdidos e mostrar que, sim, ainda tinha fôlego mesmo diante de todos os problemas que tinha enfrentado nos últimos meses. Para isso, tinha uma luta marcada que seria a chance que precisava para voltar de vez.

Só ele e pouquíssimas pessoas de sua família sabiam de todos os problemas recentes que tinha enfrentado. Ele poderia ter ido a um canal de TV contar o que estava acontecendo. O mesmo canal de TV que tantas vezes mostrava suas lutas e corria atrás dele quando ele vencia. Mas ele preferiu ficar calado.

A nova luta era uma grande oportunidade para esquecer todo o passado, deixar os problemas de lado e recuperar a confiança. Estava até retomando o ritmo dos treinos.

No grande dia, um certo nervosismo tomava conta dele. Ainda frio e nervoso a luta começou. O primeiro golpe veio rápido. Ficou tonto, viu o mundo girar e as arquibancadas embaçadas. Só depois conseguiu se recuperar e voltou à luta.

Aos poucos o nervosismo foi passando e os golpes começaram a entrar. O adversário balançou. Na sua cabeça, ele relembrava os bons tempos em que era dono do cinturão. Era forte, jovem e julgava-se invencível. "Por que não poderia ser assim novamente?"

No momento em que estava nais confiante e melhor na luta, tomou um novo golpe. Na cara. Caiu no chão. Não tinha visto aquele direto passar. "Onde estava com a cabeça naquela hora?"

Tonto e sem saber exatamente o que acontecia, voltou mais uma vez para a luta. Agora com a cara já inchada e ensaguentada.

No terceiro round, ele beijou a lona. Não pensou nada. Estava desacordado. Quando finalmente retomou a consciência e voltou a si, não havia mais luta. Escuro. Estava no hospital.

Ele não era mais o alvo dos flashes e dos gritos da torcida. Os jornais contam que o terceiro golpe foi fundamental para o nocaute. Mas para ele o que mais doeu não foi o soco, o rosto, as pernas ou  o fim. A maior dor era ver que estava sozinho em um quarto de hospital depois de tudo aquilo que tinha vivido. Sem ninguém perguntar por ele.